Viagem Guardada

A jornada de chegada na Irlanda — Viagem Guardada
Marina ao entardecer
morar fora

Do Brasil para a Irlanda:
como foi a nossa chegada

Eu nunca tinha entrado num avião.

Isso pode parecer detalhe, mas não é. Até dois meses antes de embarcar para a Europa, eu era uma pessoa que nunca tinha cruzado uma fronteira de avião. A maior viagem que eu tinha feito era a clássica ponte da amizade para o Paraguai, que todo bom paranaense já atravessou ao menos uma vez para comprar alguma muamba. E mesmo assim, a ideia de morar fora foi chegando devagar.

Era um assunto que voltava entre nós. Um tio que morava na Noruega na época constantemente nos incentivava. Meu marido sempre teve essa vontade. Por um tempo pensou seriamente em ir para o Japão. Mas eu, sinceramente, não pensava nisso. Estava confortável e achava a ideia bem absurda.

Para ser sincera, eu pensava: "imagina, nós temos nossas profissões aqui, estudamos tanto tempo e agora simplesmente largar tudo e mudar para vai saber o quê lá". Além disso, como alguns já sabem, eu fui criada pela minha avó, e a ideia de me mudar para tão longe dessa senhora sempre me deixava em pânico.

Porém em algum momento, de um jeito que até hoje não sei explicar direito, algo virou. A gente decidiu que ia. De uma forma inexplicável, dessa vez meu coração ficou em paz com a decisão, e eu entendi em algum lugar lá dentro de mim que nós devemos seguir nossos caminhos, mesmo que longe da nossa zona de conforto e de tudo o que estávamos construindo.

e foi assim que tudo começou.

O plano

A decisão veio em 2019, mas a pandemia chegou antes da passagem. Ficamos 2021 inteiro planejando, organizando, esperando e nos despedindo. Foram muitas e muitas despedidas aquele ano. Tudo era motivo para nos encontrarmos com amigos e fazer mais uma "última" despedida.

Vendemos os móveis, entregamos o apartamento e reduzimos tudo em 3 malas e duas mochilas. Aquele processo de desmontar uma vida e colocar o que importa dentro de bagagens tem um peso que você só entende quando está fazendo.

Passagem e mochila prontas para a viagem
tudo o que cabia numa vida que ia mudar de endereço

Em 2022, a gente embarcou. Mas não direto para a Irlanda.

O plano era dividir para conquistar: eu iria para a Itália tirar a cidadania italiana primeiro. Na minha família temos descendência italiana. Meu tio já tinha feito o processo pela via administrativa antes de ir para a Noruega, e eu, como advogada, tinha cuidado de toda a documentação de retificação anos antes. Era o caminho que fazia mais sentido para termos mais liberdade de escolha dentro da Europa.

Então passamos uma semana juntos na Espanha. Depois meu marido veio para a Irlanda, e eu fui para a Itália, para a casa de uma amiga, para dar início ao processo da cidadania.

Seis meses, dois países, e uma chamada de vídeo por dia

O que eu não esperava era que ia demorar tanto.

Seis meses. Seis meses de processo burocrático na Itália, de imprevistos, de espera, de ansiedade. Seis meses morando separada do meu marido, ele construindo uma vida nova para nós na Irlanda enquanto eu resolvia papelada em outro país.

Rua italiana com vespa branca
Castel Sant'Angelo em Roma

Assim que ele chegou na Irlanda, precisou tirar o PPS, arrumar emprego e encontrar moradia, tudo ao mesmo tempo. Nós nos falávamos por vídeo chamada todos os dias. Ele me mostrava as ruas, os mercados, os pubs. Me contava das pessoas que ia conhecendo na escola de intercâmbio. Eu fui conhecendo Limerick de longe, sem nunca ter pisado lá.

Pizza italiana autêntica
a Itália tem seus encantos enquanto você espera a burocracia trabalhar

antes de vir, leia isso

Pesquise o máximo que puder antes de vir. Saiba quais documentos você precisa e quais, mesmo que não obrigatórios, pode vir a precisar. Traga tudo que puder, inclusive traduzido.

E por favor, junte um bom dinheiro antes de vir. Quando você chega, não tem documentos necessários para trabalhar, para tirar esses documentos precisa de emprego, a acomodação pede caução adiantado e você não tem conta em banco. Por mais que a Europa seja cheia de oportunidades, pode levar um tempo para achar o primeiro emprego.

No nosso caso, ter uma reserva e saber que no pior dos cenários tería dinheiro para voltar fez uma baita diferença. Mas isso é assunto para um post só sobre isso.

A entrevista que eu nunca vou esquecer

Quando o processo da cidadania finalmente saiu, eu precisava arrumar emprego rápido. O visto do meu marido estava quase vencendo, e para pedirmos o visto stamp 4, eu precisava estar trabalhando.

Fui para entrevistas. Muitas. Tinha acabado de chegar num país novo, sem referências, sem rede de contatos, sem nunca ter feito entrevista de emprego antes na vida e em uma língua que eu não tinha qualquer fluência. No Brasil eu era advogada autônoma, nunca tinha trabalhado para ninguém em carteira. Então tudo aquilo era novo para mim.

Numa entrevista para um restaurante, me despedi da dona com um beijinho no rosto, do jeito que a gente faz no Brasil. Por incrível que pareça, ela me chamou para trabalhar.

Mas a que mais ficou na memória foi a do meu primeiro emprego oficial. Meu chefe precisou chamar um outro brasileiro para traduzir a entrevista. No meio, parou para me dar uma aula de como funciona uma entrevista de emprego. E depois me ofereceu a vaga.

Coliseu de Roma
Roma, enquanto eu esperava minha vida nova começar do outro lado do continente

Praticamente todos os meus chefes e supervisores aqui foram muito boas pessoas. Mas esse em especial tinha um carinho muito grande por mim e eu por ele. Até hoje sinto saudades. Se tornou um amigo que eu sempre vou levar no meu coração. Depois de 8 meses trabalhando lá, quando fui contar que ia sair, ele disse que se eu não gostasse do novo emprego era só ligar que meu lugar estaria lá.

Nem preciso falar o quanto eu chorei no último dia, né.

Quando eu finalmente pisei em Limerick

Quando cheguei, meu marido já tinha um apartamento. Pequeno, meio capenga, mas não precisávamos dividir casa nem quarto com ninguém. Sim, aqui é muito comum dividir inclusive quarto. A crise imobiliária é algo que realmente afeta todo mundo. Logo depois conseguimos um melhor, ainda de um quarto, mas novinho e aconchegante. Aquele apartamento fez muito por nós naquele momento.

E quando eu pisei na cidade pela primeira vez, tive uma sensação estranha: parecia que eu já conhecia aquele lugar.

Não era intuição. Era porque durante seis meses eu tinha visto Limerick em vídeo chamada todos os dias. Sabia onde era o mercado, onde ficava o castelo, qual era o caminho do centro. Quando finalmente estava lá, de verdade, com os pés no chão, era quase como voltar para um lugar que já era meu.

Mas só foi possível por tudo que veio antes. As malas, a Espanha, a Itália, os seis meses, os perrengues, as entrevistas, o inglês engatinhando.

É assim que a gente chega. Não de uma vez. Aos poucos, em pedaços, até encaixar.

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